Eu, particularmente, não gosto do Natal porque acelera os dias de dezembro, enlouquece as pessoas - princialmente as mulheres -, anuncia o fim de mais um ano e nos faz lembrar a eventualidade de nossa vida.
Antigamente, o Natal era composto da véspera, o dia 24 de dezembro, e do dia propriamente dito, o dia 25.
As pessoas compravam presentes poucos dias antes da noite de Natal. Havia o hábito de se encomendarem cestas recheadas de bebidas, panetones, frutas secas, torrones, doces e biscoitos. Ainda se montavam presépios em quase todas as casas e as crianças recebiam informações, mesmo que superficiais, sobre o porquê das comemorações.
Hoje o Natal começa em outubro. As lojas se enchem de pinheirinhos sintéticos; de guirlandas de flores plásticas; de luzinhas e bolas coloridas; de neve de algodão; de bonecos gordinhos de pano, de plástico, eletrônicos; de imagens de Papai Noel; de cartazes anunciando novidades, pechinchas, descontos, oportunidades...
Dias desses vi até um Papai Noel, tecnologia genuinamente chinesa, que se move, canta, abaixa as calças e mostra a bunda. Muito representativo da filosofia reinante. Só não encontrei informação sobre o aniversariante.
Alguém menos avisado que chegasse à cidade nesta época do ano, talvez um visitante de um país mulçumano, ficaria deslumbrado com os enfeites nas casas, ruas, árvores, praças, parques, prédios, lojas... Talvez ficasse impressionado com a devoção dos fiéis ocidentais. A cara da divindade está em toda parte. É invasiva, ubíqua, omnipresente.
Para colocar as coisas em seus devidos lugares, e para esclarecimento das novas gerações, acredito que a história deva ser contada em um novo evangelho: O Evangelho Segundo Santa Claus. Vamos a ele:
1. Naqueles dias, saiu um decreto do imperador Consumo mandando fazer o recenseamento de toda a terra,
2. o primeiro recenseamento, feito quando Cartão de Crédito era governador do Desejo.
3. Todos iam registrar-se, cada um na sua cidade. Iam informar RG, CPF, profissão, estado civil, número de dependentes, renda mensal, endereço, imóvel próprio ou alugado, valor do aluguel etc.
4. Também Santa, que era da família e da descendência de São Nicolau, viajou da cidade de Dutch, na Holanda, à cidade de Nova Iorque, chamada Big Apple, na América do Norte,
5. para registrar-se com Dançarina, sua rena predileta, que estava grávida.
6. Quando estavam ali, chegou o tempo do parto.
7. Ela deu à luz o seu filho primogênito, envolveu-o em faixas vermelhas e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.
8. Havia naquela região vendedores que passavam a noite nas lojas, tomando conta das mercadorias.
9. Um fiscal do Tio Sam lhes apareceu, e a Receita Federal do Tio Sam os envolveu de perguntas e de exigências de propinas. Os vendedores ficaram com muito medo que isso espantasse a freguesia.
10. O fiscal então lhes disse: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que será também a de todo o povo:
11. hoje, na cidade de Nova Iorque, nasceu para vós o Salvador, que é o Crediário em 60 prestações!
12. E isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido, de cabelo e barba brancos, envolto em fitas coloridas e papel de presente laminado e deitado numa manjedoura."
13. De repente, juntou-se ao fiscal uma multidão do exército de consumidores cantando a Santa Claus:
14. “Glória ao Dólar, na mais alta cotação dos céus, e paz na terra aos homens que gastam com boa vontade!”
15. Quando os fiscais se afastaram deles, para o céu das repartições de Washington, os vendedores disseram uns aos outros: “Vamos ao shopping, para ver o que aconteceu, segundo Tio Sam nos comunicou.”
16. Foram, pois, às pressas ao shopping mais próximo e encontraram Dançarina, a rena preferida de Santa, e Santa, e o recém-nascido deitado na manjedoura.
17. Quando o viram, contaram as palavras que lhes tinham sido ditas a respeito do menino.
18. Todos os que ouviam os vendedores ficavam admirados com aquilo que contavam, inclusive as renas Rodolfo, Corredora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão, Relâmpago, e Empinadora.
19. Dançarina, porém, guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração, preocupada com o assédio de Empinadora a seu amado Santa.
20. Os vendedores retiraram-se, louvando e glorificando a Tio Sam por tudo o que tinham visto e ouvido, de acordo com o que lhes tinha sido dito.
A história, como no evangelho original, é meio complicada. Como as pessoas não gostam de ler, recomendo que, para simplificar, digam à molecada que no dia 25 de dezembro comemora-se o nascimento de Santa Claus, o Papai Noel. Essa explicação parecerá, a eles, muito mais coerente.