sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Mensagem de Fim de Ano

Dia desses fui ao SESC Vila Mariana assistir ao musical da Emília, aquela coisinha linda e graciosa, filha da Márcia e do Kei. Surpreso, reencontrei um Brasil que pensei não existir mais, um país de crianças ingênuas, felizes e talentosas; um país de pais embevecidos e orgulhosos, de avós deliciados, de amigos encantados. Confesso que me emocionei.
Havia fantasia, muita fantasia, mas da boa, sintetizada no texto de Ruth Rocha, mas que caberia nos contos de Esopo, Ana Maria Machado, Ziraldo, Figueiredo Pimentel, Monteiro Lobato, Viriato Correa, Thales de Andrade, Lewis Caroll, Mark Twain, Andersen, Charles Dickens... Confesso que me emocionei.
Descobri que, sob essa camada densa de lama que nos envolve, emporcalha e exaspera, existe um país real, um país de sonhos possíveis, de fantasias permitidas. Existe um país de Cucas, de Chapeuzinhos Vermelhos, de Matintas-Pereras, de Brancas de Neves, de Bois Tatás, de Cachinhos Dourados, de Tom Sawyers, de Sacis, de Narizinhos, de Viscondes de Sabugosa... Um país de Emílias. Confesso que me emocionei.
Descobri que existe um país muito diferente e melhor do que o mostrado e deformado pela mídia. Existe um país de gente que não aceita, não compactua, não se deixa derrotar por esse país de mensalões, de dólares na cueca, de vendas de sentenças, de governantes canalhas, de traficantes inimputáveis, de empresários desonestos, de Genuínos, de Dirceus, de Inocêncios, de Malufs, de Sarneys, de Delúbios, de Paulinhos da Força, de Nicolaus, de Severinos, de Paloccis, de Quércias... de Lulas. Existe um país de Emílias. Confesso que me emocionei.
Por isso não vou desejar um “Feliz Natal” aos amigos, nem um “Próspero Ano Novo”, não quero a repetição dos mesmos votos, dos mesmos chavões, das mesmas expectativas frustradas. Vou desejar um “Feliz e Próspero Brasil”, de esperanças factíveis, que será construído dia a dia por essa novíssima geração de Emílias.
Abraço afetuoso,
Gabriel

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O Evangelho Segundo Santa Claus

Eu, particularmente, não gosto do Natal porque acelera os dias de dezembro, enlouquece as pessoas - princialmente as mulheres -, anuncia o fim de mais um ano e nos faz lembrar a eventualidade de nossa vida.
Antigamente, o Natal era composto da véspera, o dia 24 de dezembro, e do dia propriamente dito, o dia 25.
As pessoas compravam presentes poucos dias antes da noite de Natal. Havia o hábito de se encomendarem cestas recheadas de bebidas, panetones, frutas secas, torrones, doces e biscoitos. Ainda se montavam presépios em quase todas as casas e as crianças recebiam informações, mesmo que superficiais, sobre o porquê das comemorações.
Hoje o Natal começa em outubro. As lojas se enchem de pinheirinhos sintéticos; de guirlandas de flores plásticas; de luzinhas e bolas coloridas; de neve de algodão; de bonecos gordinhos de pano, de plástico, eletrônicos; de imagens de Papai Noel; de cartazes anunciando novidades, pechinchas, descontos, oportunidades... 
Dias desses vi até um Papai Noel, tecnologia genuinamente chinesa, que se move, canta, abaixa as calças e mostra a bunda. Muito representativo da filosofia reinante. Só não encontrei informação sobre o aniversariante.
Alguém menos avisado que chegasse à cidade nesta época do ano, talvez um visitante de um país mulçumano, ficaria deslumbrado com os enfeites nas casas, ruas, árvores, praças, parques, prédios, lojas... Talvez ficasse impressionado com a devoção dos fiéis ocidentais. A cara da divindade está em toda parte. É invasiva, ubíqua, omnipresente.
Para colocar as coisas em seus devidos lugares, e para esclarecimento das novas gerações, acredito que a história deva ser contada em um novo evangelho: O Evangelho Segundo Santa Claus. Vamos a ele:


1. Naqueles dias, saiu um decreto do imperador Consumo mandando fazer o recenseamento de toda a terra,
2. o primeiro recenseamento, feito quando Cartão de Crédito era governador do Desejo.
3. Todos iam registrar-se, cada um na sua cidade. Iam informar RG, CPF, profissão, estado civil, número de dependentes, renda mensal, endereço, imóvel próprio ou alugado, valor do aluguel etc.
4. Também Santa, que era da família e da descendência de São Nicolau, viajou da cidade de Dutch, na Holanda, à cidade de Nova Iorque, chamada Big Apple, na América do Norte,
5. para registrar-se com Dançarina, sua rena predileta, que estava grávida.
6. Quando estavam ali, chegou o tempo do parto.
7. Ela deu à luz o seu filho primogênito, envolveu-o em faixas vermelhas e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.
8. Havia naquela região vendedores que passavam a noite nas lojas, tomando conta das mercadorias.
9. Um fiscal do Tio Sam lhes apareceu, e a Receita Federal do Tio Sam os envolveu de perguntas e de exigências de propinas. Os vendedores ficaram com muito medo que isso espantasse a freguesia.
10. O fiscal então lhes disse: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que será também a de todo o povo:
11. hoje, na cidade de Nova Iorque, nasceu para vós o Salvador, que é o Crediário em 60 prestações!
12. E isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido, de cabelo e barba brancos, envolto em fitas coloridas e papel de presente laminado e deitado numa manjedoura."
13. De repente, juntou-se ao fiscal uma multidão do exército de consumidores cantando a Santa Claus:
14. “Glória ao Dólar, na mais alta cotação dos céus, e paz na terra aos homens que gastam com boa vontade!”
15. Quando os fiscais se afastaram deles, para o céu das repartições de Washington, os vendedores disseram uns aos outros: “Vamos ao shopping, para ver o que aconteceu, segundo Tio Sam nos comunicou.”
16. Foram, pois, às pressas ao shopping mais próximo e encontraram Dançarina, a rena preferida de Santa, e Santa, e o recém-nascido deitado na manjedoura.
17. Quando o viram, contaram as palavras que lhes tinham sido ditas a respeito do menino.
18. Todos os que ouviam os vendedores ficavam admirados com aquilo que contavam, inclusive as renas Rodolfo, Corredora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão, Relâmpago, e Empinadora.
19. Dançarina, porém, guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração, preocupada com o assédio de Empinadora a seu amado Santa.
20. Os vendedores retiraram-se, louvando e glorificando a Tio Sam por tudo o que tinham visto e ouvido, de acordo com o que lhes tinha sido dito.

A história, como no evangelho original, é meio complicada. Como as pessoas não gostam de ler, recomendo que, para simplificar, digam à molecada que no dia 25 de dezembro comemora-se o nascimento de Santa Claus, o Papai Noel. Essa explicação parecerá, a eles, muito mais coerente.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A Princesa e o Dragão

Era uma vez uma doce princesinha que morava na torre de um castelo encantado. Ela era muito delicada, linda e inteligente. O azul de seus olhos servia de inspiração para as fadas, que coloriam as manhãs claras de inverno, e seu coração puro parecia guardar todas as bondades do mundo.
Ela costumava brincar no belo jardim que moldurava o castelo. Menina, dividia seus sonhos com lindas princesas que habitavam sua imaginação: Rapunzel, Tiana, Giselle, Jasmine, Mulan, Pocahontas, Bela, Aurora e Ariel. Ela gostava muito de todas, mas Ariel era a sua preferida.
 Porém, os dias nem sempre eram de encantamento, despreocupados, felizes, iguais. Num reino muito distante, vivia um monstro, um terrível dragão que sem aviso costumava invadir a paz do castelo. Quando aparecia, sem ser convidado, tudo mudava. De repente, o sol parecia se esconder para nunca mais voltar, a noite caía como uma espessa nuvem negra, transformando o jardim em escuro, denso e assustador bosque. Os arbustos cresciam como frondosas árvores; as borboletas, como enormes morcegos; o castelo encantado se tornava assombrada e fria masmorra; um cheiro terrível de fumaça e enxofre empestava o ar do bosque.
Certo dia, a bela princesinha cruzava o florido jardim tentando encontrar sua boneca preferida que tinha esquecido em um lugar qualquer, talvez sob um arbusto de azáleas ou entre os espinhos pontiagudos de uma roseira. As princesas a ajudavam na busca. Ariel a levava pela mão e Aurora cantava uma linda canção que falava de fantasia, de esperança e de sonhos.
Subitamente, o sol se escondeu. O jardim parecia crescer sem parar, transformando-se, mais uma vez, num terrível e intrincado bosque. A roseira se agigantava, como que tentando alcançar o céu, seus galhos engrossavam como fortes tentáculos, seus espinhos cresciam como afiadas garras. Então, um grave e áspero rugido fez tremer a terra. As princesas correram para perto da princesinha para protegê-la...
Era o dragão intrometido, forte, feio, feroz, que surgia inesperadamente no meio da mata. Vinha aborrecê-la com seus olhos assustadores, suas mãos pegajosas e sua boca grudenta.
O monstro parecia ignorar as princesas. Olhava para a menina com sua cara feia, estranha, indecifrável. Sua presença a irritava, seu hálito a incomodava, o cheiro de seu corpo a desgostava.
A princesinha estava com medo e aborrecida. Queria que o dragão fosse embora para nunca mais voltar, queria poder brincar para sempre sob a proteção de seu castelo, entre as flores de seu jardim, na companhia de Ariel e de suas amigas princesas.
Indiferente a suas súplicas, o dragão esticou os braços e a agarrou com suas mãos grandes, rugosas e repulsivas. As princesas fugiram assustadas. Foram se esconder atrás de um grande abricó-de-macaco. Dali, o viram carregar a menininha e desaparecer por entre as árvores e os cipós emaranhados.
O monstro parecia procurar alguma coisa. Parava aqui, cheirava ali, abaixava-se acolá. Finalmente encontrou, debaixo de uma folha de costela-de-adão, a boneca perdida e a entregou à princesinha.
A todo instante, a menininha pedia para ser colocada no chão; não queria passear com ele; não gostava dele; ele era velho, feio e desajeitado.
Foi então que ela disse as palavras mágicas que mudaram definitivamente tudo. Disse que não era mais criança; que não acreditava mais em princesas; e muito menos em dragões.
Então, o bosque começou a desaparecer lentamente, a prisão voltava a ser seu castelo encantado, e as plantas e flores do jardim reapareciam. O monstro a colocou no chão com extremo cuidado.
As princesas saíram de trás do abricó e se aproximaram da princesinha. Uma a uma, Rapunzel, Giselle, Tiana, Pocahontas, Jasmine, Mulan, Bela e Aurora lhe disseram adeus. Uma brisa leve, perfumada e morna, pareceu agitar o jardim. As princesas se dissolviam no ar lentamente. Ariel foi a última: dissipou-se enquanto a menina a abraçava.
A princesinha ainda perguntou por que elas estavam indo embora; se não gostavam mais dela; se estavam com medo do dragão; se elas voltariam. Mas, elas estavam indo para nunca mais voltar. Como a princesinha deixava de ser criança, as princesas se despediam, levando com elas a fantasia.
A menina chorou muito, pedindo para que não fossem embora, para que ficassem. Mas a fantasia partia junto com a infância.
O dragão também havia se transformado. Em pé, inerte, no meio do jardim, com os olhos marejados, o avô contemplava a transformação da netinha.